De onde vem a cultura do estupro?

Estupro

O recente caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro (re)acendeu a discussão sobre a cultura do estupro. Mas o que isso significa? São conceitos, ideias, atitudes e “brincadeiras” machistas, mesmo que aparentemente inofensivas, que incentivam a desqualificação das mulheres, tratando-as como objetos de prazer e de subserviência, e que alimentam os casos cada vez mais comuns de assédios e abusos sexuais. Segundo as estatísticas, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil, sem contar os milhares de outros casos que nunca chegarão a ser divulgados.

Homem não chora?

Fiquei pensando sobre como surgiu essa “cultura”, como ela se estabelece ainda hoje? O que todos nós sabemos é que ela surgiu há milhares de anos e hoje somos todos (ou quase todos) seus propagadores, estejamos conscientes disso ou não. Acho que vale a pena repetir uma história que presenciei nas ruas e já relatei antes, mas que exemplifica bem a responsabilidade de todos: uma mãe diz ao filho que chorava e que devia ter no máximo uns três anos de idade: “Pare de chorar! Fale que nem homem, sem chorar!”

Quantas vezes já ouvimos coisas como essas de nossas mães, pais, avós, tios e tias, professoras, etc. O que podemos deduzir que acontece com um menino que cresce ouvindo que chorar é coisa de mulher e não de homem? Obviamente esse menino, como a grande maioria dos meninos, vai crescer desqualificando os próprios sentimentos, como se estes não existissem ou não devessem existir. Ao negar seus sentimentos, com o passar do tempo será inevitável termos um jovem inseguro e com muita confusão interior. Mas o mundo masculino tradicional não aceita esse tipo de comportamento, nem qualquer outro que pareça fraqueza. A “punição” mínima nesses casos é a zoação, escárnio e tratamentos que desqualificam a masculinidade, como “viadinho”“bicha”“mariquinha” e muitos outros.

A sexualidade e as emoções masculinas

Então, como se pode evitar algo aparentemente inevitável, já que as dúvidas e inseguranças emocionais fazem parte da vida desses jovens? Para muitos deles uma boa solução é (tentar) provar o tempo todo para si mesmos e para o mundo, que são legítimos e honrados representantes da confraria dos machos. Isso significa adotar uma série de comportamentos estereotipados, todos preocupados com a própria imagem, mas que são bem aceitos pela sociedade, por todos nós, homens e mulheres.

A sexualidade tem papel preponderante nesse cenário. Como as emoções são desprezadas no universo masculino, a grande chance de sentir prazer, além de ser uma ótima oportunidade de provar sua macheza, será atribuída ao pênis, através da sexualidade. Juntam-se a isso outros conceitos tipicamente machistas e igualmente difundidos por todos nós, como a ideia de termos que ser “pegadores”, viris, fortes, agressivos, destemidos e outras características mais, como se essas fossem formadoras de uma identidade masculina, e temos assim reunidos os ingredientes formadores da cultura do estupro.

O que não se pode querer é eliminar o efeito sem mudar as suas causas. Se quisermos enfraquecer a cultura do estupro na nossa sociedade, precisamos mudar primeiramente a nossa cultura pessoal relacionada ao que é ser homem e o que é ser mulher. E isso não pode ser uma tarefa só dos homens, como muitas pessoas pensam. O desafio, tanto de homens quanto de mulheres, é reformular nossos valores e cuidar das nossas crianças livrando-as de conceitos fechados e pré-concebidos de comportamento e identidade sexual, principalmente aqueles que inibem o contato e a percepção dos meninos sobre o que é belo, delicado e sensível.

Começa na infância e na mentalidade dos pais que educam

Um menino que esquece um pouco a bola para brincar com a irmã de casinha, ou mesmo de boneca, não vai crescer e se tornar menos homem do que os outros, como muitos pais pensam e morrem de medo. Pelo contrário, as chances são bem maiores desse menino desenvolver um senso mais apurado de cuidado e respeito pelo universo feminino. Essa percepção e respeito pelo feminino, tanto dentro quanto fora de si mesmo, já que a energia feminina também faz parte do mundo masculino, ajudam os homens a se tornarem plenos, inteiros. Isso significa que esses homens são capazes de sentir e valorizar o que vem dos seus corações. Esses homens sim, juntamente com as mulheres igualmente conscientes, poderão transformar a nefasta cultura do estupro em cultura da reciprocidade amorosa. Essa mudança é possível e começa agora, dentro de cada um e de todos.

Um abraço, Alexandre Vieira.
(Psicólogo, facilitador de Grupos de Homens no Rio de Janeiro e participante do Movimento Guerreiros do Coração)